31.1.15

Sobre bicicletas e metrópoles



De uma hora pra outra um monte de gente começa a advogar o uso da bicicleta como solução para os problemas de circulação na cidade.

O fato não deixa de ser curioso e ilustra como a opinião pública no nosso país se move; ainda que, nesse caso, seja atomizada e restrita a alguns grupos de pressão.

Estudo mobilidade urbana há alguns anos e já me desloquei muitas vezes para o trabalho em bicicleta aqui em Salvador. Em tese, deveria estar comemorando essa mudança de percepção de parte da população. Mas na verdade, ao contrário, esses supostos ventos de mudança me preocupam.

A bicicleta nunca foi - e nunca será - por si só, solução para a mobilidade urbana de grandes cidades. Ela pode, sim, compor um cardápio de modos de deslocamento que torna as possibilidades do ir e vir na cidade mais eficientes, prazerosas e, mesmo, democráticas. Mas, como cada cidade é diferente, não existe receita pronta. E, seguramente, sair pintando faixas vermelhas nas vias motorizadas está longe de ser a coisa certa.

Assim como todos os meios de deslocamento, a simpática bicicleta também tem os seus limites. Para começo de conversa, a bicicleta não serve àqueles com mobilidade reduzida, seja permanente ou temporária. Assim, deficientes físicos, cegos, gestantes, crianças de colo, parte dos obesos, parte dos idosos, enfermos, acidentados etc estão excluídos.

A bicicleta se presta bem a deslocamentos diários em percursos não muito acidentados até distâncias, vá lá, de uns 8km. 5km seria o ideal. A partir dai o ideal é fazer comutação para outro meio motorizado. Logo fazer rotas cicláveis sem integração com outros meios é, na melhor das hipóteses, desconhecimento de causa. Essa integração implica também em construir infra-estrutura para tal: bicicletários e paraciclos, no mínimo.

Poucos sabem, mas o Código Brasileiro de Trânsito contempla e regula o deslocamento por bicicletas nas vias urbanas. Alguns estudiosos do assunto, inclusive, desaprovam a marcação de ciclofaixas em vias onde o compartilhamento poderia ser tácito. Geralmente vias abaixo de 50 km/h. A questão é simples; delimitar o lugar do ciclista é tornar o condutor de veículos motorizados menos atencioso com quem se desloca em duas rodas. Mas essas questões não parecem preocupar muito os prefeitos que querem passar a impressão de que estão em sintonia com o mundo avançado.

No mais a atual onda em prol do uso das bicicletas e, mais do que isso, da delimitação de ciclofaixas (!) não escapa a velha agenda míope da luta de classes que coloca todos aqueles que se sentem prejudicados pela proliferação de faixas vermelhas nas vias da cidade, seja comerciantes ou moradores sem garagem - caso de São Paulo - como trogloditas capitalistas que só pensam em vantagens pessoais. Acrescente ao imbróglio o fato de muitos cicloativistas se considerarem uma espécie de ser superior: ecologicamente correto, socialmente justo, economicamente viável e culturalmente aceito. Pronto: temos o novo justiceiro dos dias que correm.

Essa estória, do jeito que anda sendo levada, criando animosidades desnecessárias e uma falsa dicotomia entre quem se desloca prioritariamente em veículos motorizados e aqueles que aderiram à bicicleta, corre o risco de virar uma moda e não contribuir em nada à melhoria da mobilidade nas grandes cidades que, ao contrário, do que muitos talibikers (a expressão é de Bárbara Gância) pensam, tem várias outras frentes urgentes: transporte público de qualidade e calçadas completas e bem executadas.

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